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quarta-feira, maio 10, 2006

Capítulo 9

O Sofrimento dos Animais

E o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles.(Gênesis 2:19)

Para descobrir o que é natural devemos estudar os espécimes que retêm a sua natureza e não os que foram corrompidos. ARISTÒTELES, Politics, I, v, 5.
Até aqui falamos do sofrimento humano; mas todo o tempo "um lamento de dor inocente enternece o céu". O problema do sofrimento dos animais é estarrecedor; não pelo fato de eles serem tão numerosos (pois, como vimos, não é sentida mais dor quando sofre um milhão do que um único ser), mas porque a explicação cristã da dor humana não pode ser estendida à dos animais. Ao que sabemos, estes são incapazes seja de pecado ou de virtude: por- tanto, nem merecem sofrer nem podem ser aperfeiçoados pelo sofrimento. Ao mesmo tempo, jamais devemos permitir que o problema do sofrimento animal se torne o centro do problema da dor; não por ser insignificante - tudo o que fornece uma base plausível para duvidar da bondade de Deus é sem dúvida importante - mas por estar fora do alcance de nosso conhecimento. Deus nos deu dados que nos permitem, até certo ponto, compreender nosso próprio sofrimento: mas não nos deu detalhes nesse sentido sobre os animais. Não sabemos por que foram feitos nem o que são, e tudo o que dizemos a respeito dos mesmos é especulativo. A partir da doutrina de que Deus é bom, podemos com toda confiança deduzir que a aparência de crueldade divina despreocupada no reino animal é uma ilusão. O fato de o único sofrimento que conhecemos (o nosso próprio) revelar-se como não sendo crueldade, irá tornar mais fácil acreditar nisso. A partir desse ponto, tudo o mais é adivinhação.
Podemos começar eliminando parte do engano apresentado no primeiro capítulo. O fato de as vidas vegetais fazerem "presa" umas das outras e se encontrarem num estado de competição "implacável" não tem qualquer importância moral. A "vida" no sentido biológico nada tem a ver com o bem e o mal até que surge a sensibilidade. As próprias palavras "presa" e "implacável" não passam de simples metáforas. Wordsworth acreditava que toda flor "goza do ar que respira", mas não há razão para supor que estivesse certo.
Não há dúvida de que as plantas vivas reagem aos danos de maneira diferente da matéria inorgânica; mas um corpo humano anestesiado reage de outro modo ainda, e tais reações não provam sensibilidade. Estamos naturalmente justificados ao falar da morte ou eliminação de uma planta como se isso fosse uma tragédia, desde que saibamos estar usando uma metáfora. Fornecer símbolos para as experiências espirituais pode ser uma das funções do reino mineral e vegetal. Não devemos, porém, cair vítima de nossa metáfora.
Uma floresta onde metade das árvores esteja matando a outra metade pode ser uma floresta perfeitamente "boa": pois sua bondade consiste em sua utilidade e beleza e ela não possui sensibilidade.
Quando observamos os animais, surgem três perguntas: Em primeiro lugar vem a questão do fato. O que os animais sofrem? Em segundo, a questão da origem. Como a 65
doença e o sofrimento entraram no mundo animal? E, terceiro, há a questão de justiça. Como o sofrimento do animal pode ser reconciliado com a justiça de Deus?
1. A longo prazo, a resposta à primeira pergunta é esta: Não sabemos. Mas algumas especulações podem ter um certo mérito Devemos começar fazendo distinção entre os animais, pois se o macaco pudesse compreender-nos ele não gostaria de ser classificado juntamente com a ostra e a minhoca numa classe única de "animais" e contrastado com os homens. Fica claro que em certos aspectos o macaco e o homem são muito mais parecidos entre si do que qualquer deles se assemelha à minhoca. No nível inferior do reino animal não precisamos supor que exista algo que possamos reconhecer como sensibilidade. Os biólogos, ao distinguir o animal do vegetal, não fazem uso do sentido ou locomoção, ou outras características desse tipo, como o leigo naturalmente faria. Em algum ponto, porém, embora não possamos dizer onde, a sensibilidade naturalmente é introduzida, pois os animais superiores possuem sistemas nervosos bastante semelhantes aos nossos.
Mas, neste ponto devemos distinguir ainda a sensibilidade da consciência. Se você não tinha ainda ouvido falar desta distinção, penso que vai considerá-la surpreendente, mas ela possui grande autoridade e você estaria errado ao pô-la do lado. Suponhamos que três sensações se sucedam - primeiro A, depois B, depois C. Quando isto acontece com você, passará então pelo processo ABC. Mas, veja o que está então implícito. Isso implica em que existe algo em sua pessoa que se acha suficientemente fora de A para notar A indo embora, e suficientemente fora de B para notar B começando e passando a encher o lugar que A deixou vago; e ainda algo que reconhece a si próprio como mantendo-se o mesmo através da transição de A para B e de B a C, para que possa dizer: "Passei pela experiência ABC".
Isto é então o que eu chamo de Consciência ou Alma e o processo que acabei de descrever é uma das provas de que a alma, embora experimente o tempo, não é em si mesma absolutamente "temporal". A mais simples experiência ABC como uma sucessão exige uma alma que não seja ela mesma um mero suceder de estados, mas sim um leito permanente em que rolam essas diferentes porções do fluxo das sensações, e que se reconhece a si própria como sendo a mesma sob todas elas.
É quase certo, entretanto, que o sistema nervoso de um dos animais superiores lhe apresenta sensações sucessivas. Não se segue daí que ele possua qualquer "alma", nada que reconheça a si próprio como tendo tido A e esteja agora tendo B, e a seguir observe como B se afasta para dar lugar a C. Se ele não tivesse tal "alma", o que chamamos de experiência ABC jamais ocorreria. Haveria, na linguagem filosófica, uma "sucessão de percepções"; isto é, as sensações ocorreriam de fato nessa ordem, e Deus saberia que estavam ocorrendo, mas não o animal.
Não haveria "uma percepção da sucessão". Isto significa que se você desse duas chibatadas em tal criatura, infringiria na verdade duas dores: mas não existiria um "eu" coordenador que pudesse reconhecer: "'eu senti duas dores, dois golpes". Mesmo numa única dor, não existe "eu" para dizer: "sinto dor" - pois se pudesse separar se da sensação - o leito do fluxo - suficientemente para dizer "sinto dor", poderia também então ligar as duas sensações como sendo a sua experiência. A descrição correta seria: "a dor está tendo lugar neste animal"; e não, como comumente dizemos: "Este animal está sentindo dor", pois as palavras "este" e "sentindo" na verdade introduzem a suposição de que se trata de um "eu" ou "alma" ou "consciência" superando as sensações e organizando-as em uma "experiência" como fazemos. Tal sensibilidade sem consciência - admito - não podemos imaginar: não porque nunca ocorra em nós, mas porque, quando isso acontece, nós nos 66 descrevemos como estando "inconscientes". E com razão. O fato de os animais reagirem à dor de forma semelhante à nossa não é, naturalmente, uma prova de que tenham consciência; pois nós também podemos reagir sob os efeitos do clorofórmio, e até mesmo responder perguntas quando estamos dormindo.
Até que ponto da escala essa sensibilidade inconsciente pode Estender-se, não quero nem adivinhar. É certamente difícil supor que os macacos, o elefante, e os animais domésticos superiores não tenham, em algum grau, um "eu" ou alma que associa as experiências e dá lugar à individualidade rudimentar. Mas pelo menos uma grande parte do que parece ser sofrimento no animal, não necessita sê-lo em qualquer sentido real. Podemos ser nós que inventamos os "sofredores" mediante a "falácia patética" de ler nas batidas do coração um "eu" para o qual não haja evidência real.
2. A origem do sofrimento animal poderia ser traçada, por gerações anteriores, até a Queda do homem - o mundo inteiro foi contagiado pela rebelião destrutiva de Adão. Isto agora é, entretanto, impossível, pois temos boa razão para crer que os animais existiram muito antes do homem. O ato de comer carne, com tudo que ele envolve, é mais antigo que a humanidade. É então impossível neste ponto deixar de lembrar de uma história sagrada que, embora não esteja incluída nos credos, tem sido amplamente divulgada na Igreja e parece estar implícita em vários pronunciamentos dominicais, paulinos e joaninos - estou me referindo à história de que o homem não foi a primeira criatura a rebelar-se contra o Criador mas que um ser mais antigo e poderoso há muito tempo tornou-se apóstata e é agora o imperador das trevas e (significativamente) o Senhor deste mundo. Algumas pessoas gostariam de rejeitar todos esses elementos dos ensinos de Nosso Senhor: e poderia ser argumentado que quando Ele se esvaziou a Si mesmo de sua glória, também humilhou- Se a Si mesmo, a fim de partilhar, como homem, as superstições correntes em sua época.
Eu certamente sou de opinião que Cristo, na carne, não era onisciente - mesmo que apenas pelo fato de um cérebro humano não poder, presumivelmente, ser o veículo da consciência onisciente; e dizer que os pensamentos de Nosso Senhor não eram realmente condicionados pelo tamanho e forma de seu cérebro poderia ser na verdade uma negação da encarnação, tornando-nos docetistas.
Assim sendo, se Nosso Senhor tivesse feito qualquer declaração científica ou histórica que soubéssemos ser falsa, isto não perturbar minha fé na sua divindade. Mas a doutrina da existência e queda de Satanás não está entre as coisas que sabemos ser inverídicas: ela não contradiz os fatos descobertos pela ciência, mas apenas o simples e vago "clima de opinião" em que acontece estarmos vivendo. Eu, de minha parte, tenho um conceito muito baixo dos "climas de opinião". Quanto ao que lhe diz respeito, todo homem sabe que todas as descobertas são feitas e todos os erros corrigidos por aqueles que ignoram o "clima de opinião". Parece-me portanto uma suposição razoável, que algum extraordinário poder criado já estivesse operando para o mal no universo material, ou no sistema solar, ou pelo menos, no planeta Terra, muito antes de o homem ter entrado em cena: e que quando o homem caiu, alguém na verdade o tentou. Esta hipótese não é introduzida como uma "explicação do mal" generalizada: ela dá apenas uma aplicação mais ampla ao princípio de que o mal surge do abuso do livre-arbítrio.
Se existe tal poder, como creio, ele pode perfeitamente ter corrompido a criação animal antes do aparecimento do homem. O mal intrínseco do mundo animal está no fato de eles, ou alguns deles, viverem mediante a destruição uns dos outros. Que as plantas façam o mesmo não admito que seja um mal. A corrupção satânica dos animais seria 67 portanto análoga, em um sentido, à do homem. Pois um dos resultados da queda do homem foi que sua animalidade recuou da humanidade em que tinha sido incorporada, e que não mais podia governá-la. Da mesma forma, a animalidade pode ter sido encorajada a voltar ao comportamento adequado aos vegetais.
É, naturalmente, correto que a imensa mortalidade provocada pelo fato de muitas feras viverem à custa de outras é equilibrada, na natureza, por um número imenso de nascimentos e poderia parecer que se todos os animais fossem herbívoros e saudáveis, iriam acabar morrendo de inanição como resultado de sua própria fertilidade. Mas compreendo a fecundidade e o índice de mortalidade como fenômenos correlatos. Não havia, talvez, qualquer necessidade de tal excesso do impulso sexual: o Senhor deste mundo pensou nele como uma resposta à fome carnívora - um esquema duplo para obter o máximo de tortura.
Se achar menos ofensivo, você pode dizer que a "força da vida" foi corrompida, enquanto eu afirmo que os seres vivos foram corrompidos por um ente angélico maldoso. Estaremos na verdade dizendo a mesma coisa: mas acho mais fácil crer num mito de deuses e demônios do que em um de substantivos abstratos hipoestáticos. E, no final de contas, nossa mitologia pode estar muito mais próxima da verdade literal do que supomos. Não vamos esquecer que Nosso Senhor, certa ocasião, atribuiu a enfermidade humana muito claramente a Satanás,7 e não à ira divina ou à natureza.
Se esta hipótese merece ser considerada, vale também a pena considerar se o homem, quando chegou ao mundo, não tinha já uma função redentora a realizar. O homem, mesmo agora, pode fazer maravilhas com os animais: tenho um gato e um cão que vivem juntos em minha casa e parecem gostar disso. Pode ter sido uma das funções do homem restaurar a paz ao mundo animal, e se não tivesse se unido ao inimigo poderia ter tido sucesso nisso até um ponto que agora mal podemos imaginar.
3. Em último lugar, vem a questão da justiça. Vimos que parece haver razão para crer que nem todos os animais sofrem como pensamos. Mas alguns, pelo menos, fazem crer que possuem um "eu", e o que pode ser feito com relação a esses inocentes? Vimos também que é possível acreditar que o sofrimento dos animais não é obra de Deus, tendo sido iniciado pela malícia de Satanás e perpetuado pela deserção do homem de seu posto. Todavia, se Deus não o provocou, Ele o permitiu e, mais uma vez, o que deve ser feito a favor desses inocentes? Fui advertido para nem sequer levantar a questão da imortalidade dos animais, a fim de não ir fazer "companhia a todas as velhas solteironas".8 Não faço objeção a essa companhia. Não desprezo a virgindade nem a velhice; e algumas das mentes mais sagazes que conheci habitavam os corpos de solteironas. Nem me abalo com perguntas jocosas como: "Onde você vai colocar todos os mosquitos?" - pergunta essa a ser respondida em seu próprio nível, salientando que, se o pior acontecer, um céu para os mosquitos e um inferno para os homens poderiam ser muito convenientemente conjugados.
O completo silêncio das Escrituras e da tradição cristã quanto à imortalidade dos animais é uma objeção mais séria; mas ela seria fatal apenas se a revelação cristã mostrasse quaisquer sinais de ser propositada como um système de la nature respondendo a todas as questões.
Mas, não é nada disso: a cortina rasgou-se em um ponto, e num ponto apenas, para revelar nossas necessidades práticas imediatas e não para satisfazer nossa curiosidade intelectual. Se os animais fossem, de fato, imortais, é improvável, pelo que discernimos do método de revelação de Deus, que Ele tivesse revelado esta verdade. Até mesmo a nossa imortalidade
7 Lucas 13:16
8 Mas também com J. Wesley, sermon LXV. The Great Deliverance.
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é uma doutrina que surge tardiamente na história do judaísmo. Portanto, o argumento do silêncio é muito fraco.
A grande dificuldade em supor que a maioria dos animais seja imortal é que a imortalidade quase não tem significado para uma criatura que não seja "consciente" no sentido explicado acima. Se a vida de uma salamandra for simplesmente uma sucessão de sensações, o que estaríamos dizendo ao afirmar que Deus pode ressuscitar a salamandra que morreu hoje? Ela não poderia reconhecer-se como a mesma salamandra; as sensações agradáveis de qualquer outra salamandra que vivesse após a sua morte seriam uma recompensa tão grande ou tão pequena por seus sofrimentos terrenos (se houvesse algum) como a de seu ressurreto - eu ia dizer "eu", mas a idéia é que a salamandra não tem provavelmente um "eu". O que temos de tentar dizer, nesta hipótese, não será nem mesmo dito. Não há, portanto, questão de imortalidade para as criaturas que são simplesmente sensíveis. Nem a justiça e a misericórdia exigem que houvesse, pois tais criaturas não têm experiências penosas. Seu sistema nervoso expede todas as letras: RDO, mas como não podem ler, elas jamais as unem na palavra DOR. E todos os animais podem estar nessa condição.
Se, todavia, a forte convicção que possuímos de um "eu" real, embora rudimentar, nos animais superiores, e especialmente naqueles que domesticamos, não for uma ilusão, o destino deles exige uma consideração mais profunda. O erro que temos de evitar é o de considerá-los em si mesmos. O homem deve ser entendido apenas em sua relação com Deus. Os animais só devem ser entendidos em sua relação com o homem e, através deste, com Deus. Vamos guardar-nos aqui de um daqueles bolos intransmutáveis de pensamento ateísta que com freqüência sobrevivem na mente do moderno cristão. Os ateus naturalmente consideram a coexistência do homem e de outros animais como um simples resultado contingente de fatos biológicos em interação; e a domesticação de um animal pelo homem como uma interferência puramente arbitrária de uma espécie com outra. O animal "real" ou "natural" para eles é o selvagem, e o animal domesticado não passa de uma coisa artificial ou não-natural. Mas o cristão não deve pensar assim. O homem foi destinado por Deus para ter domínio sobre os animais, e tudo o que o homem faz para o animal ou é uma prática legal, ou um abuso sacrílego, de uma autoridade divinamente outorgada. O animal domesticado, portanto, no sentido mais profundo, é o único animal "natural" - o único que vemos ocupando o espaço que foi feito para ocupar, e é nele que devemos basear toda a nossa doutrina dos animais.
Veremos agora que, até o ponto em que o animal doméstico possui um "eu" ou personalidade reais, ele a deve inteiramente a seu dono. Se um bom cão pastor parece "quase humano", isso se deve a um bom pastor tê-lo feito assim. Já notei a força misteriosa do termo "em". Não penso que todos os sentidos do mesmo no Novo Testamento sejam idênticos, de modo que o homem está em Cristo e Cristo em Deus e o Espírito Santo na Igreja e também no crente individual exatamente da mesma forma. Pode tratar-se de sentidos rimados ou correspondentes em lugar de um único sentido. Vou sugerir agora - embora inteiramente disposto a ser corrigido por verdadeiros teólogos - que pode haver um sentido, correspondente, apesar de não idêntico, a esses, em que iodos os animais que chegam a ter um "eu" real estão em seus donos. Isto é, você não deve pensar num animal por si mesmo, e chamar isso de personalidade e então perguntar se Deus ira ressuscitar e abençoar isso; mas deve tomar todo o contexto em que o animal adquire sua personalidade - a saber, "O bom homem-e-a-boa-mulher-educando-seuÌ-filhos-e-seus animais-no-bomlar".
Esse contexto inteiro pode ser considerado como um "corpo" no sentido paulino (ou 69 um sub-paulino próximo); e quanto desse "corpo" pode sei" ressuscitado juntamente com o bom homem e a boa mulher, quem pode prever? Provavelmente será na medida necessária, não para a glória de Deus e a bem-aventurança do par humano, mas para essa glória e bemaventurança particulares, eternamente coloridas por essa experiência terrena particular.
Desta forma me parece possível que certos animais possam ter imortalidade, não em si mesmos, mas na imortalidade de seus donos.
A dificuldade sobre a identidade pessoal numa criatura quase impessoal desaparece quando a criatura é assim mantida em seu próprio contexto. Se você perguntar, com respeito a um animal ressuscitado desse modo como membro do Corpo inteiro do lar", onde reside a sua identidade pessoal, eu respondo: "Onde a sua identidade sempre residiu mesmo na vida terrena - em sua relação com o Corpo e, especialmente, com o senhor que é o cabeça desse Corpo". Em outras palavras, o homem conhecerá o seu cão; o cão conhecerá o seu dono e, ao conhecê-lo, será ele mesmo. Pedir que, de alguma forma, conhecesse a si mesmo, seria provavelmente exigir algo sem sentido. Os animais não são assim, e não querem ser.
Minha imagem do bom cão pastor no bom lar não cobre naturalmente os animais selvagens nem (um assunto ainda mais urgente) os animais domésticos maltratados. Ela foi apresentada apenas como uma ilustração extraída de um caso privilegiado - que é, também, a meu ver o único caso normal e incorrupto - dos princípios gerais a serem observados ao estruturar uma teoria da ressurreição dos animais.
Acho que os cristãos podem hesitar com razão em supor que os animais sejam imortais, por dois motivos. Primeiro, porque temem que ao atribuir-lhes uma "alma" no sentido completo, possam obscurecer aquela diferença entre a besta e o homem que é tão aguda na dimensão espiritual quão difusa e problemática na biológica. E, segundo, uma felicidade futura ligada à vida presente do animal simplesmente como uma compensação pelo sofrimento - tantos milênios nas pastagens felizes pagos como uma retribuição pelos "prejuízos" de tantos anos de puxar carroças - parece uma confirmação tosca da bondade divina. Por sermos falíveis, muitas vezes ferimos uma criança ou um animal sem querer, e então o melhor que podemos fazer é "compensá-lo" com uma carícia ou um bocado. Mas é difícil imaginar a onisciência agindo dessa forma, como se Deus pisasse na cauda dos animais no escuro e depois tentasse consertar a coisa do melhor modo possível! Num remendo assim tão malfeito não posso reconhecer o toque de mestre; qualquer que seja a resposta, ela deve estar num plano mais elevado do que esse.
A teoria que estou sugerindo evita ambas as objeções. Ela faz de Deus o centro do universo e do homem o centro subordinado da natureza terrena: os animais não são coordenados com o homem, mas subordinados a ele, e seu destino é inteiramente relacionado ao dele. A imortalidade derivada sugerida para eles não é uma simples emenda ou compensação: ela é parte essencial do novo céu e da nova terra, organicamente relacionada a todo o processo do sofrimento, da queda, e da redenção da humanidade.
Se supusermos, como faço, que a personalidade dos animais domesticados é largamente devida ao homem - que sua simples sensibilidade se transforma em alma em nós, da mesma forma que nossa simples alma renasce para a espiritualidade em Cristo - suponho naturalmente que bem poucos animais, em seu estado selvagem, alcançam, na verdade, um "eu" ou ego. Mas se alguns o alcançarem, e se for agradável à misericórdia de Deus que vivam novamente, sua imortalidade seria também ligada ao homem - mas, desta vez, não aos senhores individuais, e sim à humanidade. Quer dizer, se em qualquer 70 instância o valor quase-espiritual e emocional que a tradição humana atribui a um animal (tal como a "inocência" do cordeiro ou él realeza heráldica do leão) tem uma base real na natureza do mesmo, não sendo apenas arbitrária ou acidental, é então nessa capacidade, ou principalmente nela, que se pode esperar que o animal sirva o homem ressurrecto e faça parte de seu "séquito". Ou se o caráter tradicional for absolutamente errôneo, então a vida do animal 9 no céu seria devida ao efeito real, mas desconhecido, que ele teve sobre o homem durante toda a sua história: pois se a cosmologia cristã for em qualquer sentido (não digo num sentido literal) verdadeira, então tudo o que existe em nosso planeta está ligado ao homem, e até mesmo as criaturas extintas antes de ele existir são vistas à sua verdadeira luz quando consideradas como precursores inconscientes do mesmo.
Quando falamos de criaturas tão remotas como animais selvagens e pré-históricos, mal sabemos na verdade do que estamos falando. Pode muito bem ser que eles não tenham nem "eu" nem sofrimentos. Pode ser até que cada espécie possua um "eu" corporativo - que o caráter leonino, e não os leões tenha partilhado do trabalho da criação e participará da restauração de todas as coisas. E se não podemos sequer imaginar nossa própria vida eterna, muito menos podemos conceber a vida que os animais poderão ter como nossos "membros". Se o leão terrestre pudesse ler a profecia daquele dia em que ele ira comer feno como um boi, iria considerá-la uma descrição do inferno e não do céu. E se nada houver no leão além de sensibilidade carnívora, ele não tem então consciência e sua"sobrevivência" não teria significado. Mas se houver um "eu" leonino rudimentar, Deus pode dar-lhe um "corpo" conforme Lhe agradar - um corpo que não mais viva pela destruição do cordeiro, mas ainda assim ricamente leonino no sentido de expressar também qualquer energia, esplendor e poder exultante que tivesse habitado o leão visível nesta terra.
Julgo, sujeito a correção, que o profeta usou uma hipérbole oriental quando falou do leão e do cordeiro deitados juntos. Isso seria bastante impertinente por parte do cordeiro. Ver leões e cordeiros assim unidos (exceto em alguma rara Saturnália celestial) seria o mesmo que não ter nem cordeiros nem leões. Julgo que o leão, quando deixar de ser perigoso, continuará terrível: que, na verdade, iremos ver pela primeira vez aquilo de que os dentes e garras atuais são apenas uma imitação desajeitada e satanicamente pervertida. Continuará havendo ainda algo como o balançar de uma juba dourada: e o bom Duque dirá repetidamente: "Deixe que ruja de novo."
9 Isto é, sua participação na vida celestial dos homens em Cristo para Deus; sugerir uma "vida celestial" para os animais como tal é provavelmente tolice.